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Vai aonde te leva o coração - 06Jun2007 10:14:00
![]() Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem. Lembra-te de que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de igual modo, deves estar nas coisas e estar sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e de frutos. E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde ele te levar. Susanna Tamaro, Vai Aonde Te Leva o Coração, Editorial Presença, 2003 Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/06/vai-aonde-te-leva-o-corao.html E de novo a armadilha dos abraços - 03Jun2007 09:57:00
![]() E de novo a armadilha dos abraços. E de novo o enredo das delícias. O rouco da garganta, os pés descalços a pele alucinada de carícias. As preces, os segredos, as risadas no altar esplendoroso das ofertas. De novo beijo a beijo as madrugadas de novo seio a seio as descobertas. Alcandorada no teu corpo imenso teço um colar de gritos e silêncios a ecoar no som dos precipícios. E tudo o que me dás eu te devolvo. E fazemos de novo, sempre novo o amor total dos deuses e dos bichos. Rosa Lobato Faria, "Dispersos", Poemas escolhidos e dispersos, Roma Editora, Lisboa, 1997 Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/06/e-de-novo-armadilha-dos-abraos.html Flores - 01Jun2007 09:15:00
![]() É nestas flores, em particular, que vejo desenhar-se uma linha que me leva de mim a ti, passando sobre um campo invisível, onde já não se ouvem os pássaros, e onde o vento não faz cair as folhas. Estamos em frente de um canteiro puramente abstracto, e cada uma destas flores nasceu das frases em que o amor se manifesta, e do movimento dos dedos sobre a pele, traçando um fio de horizonte em que os meus olhos se perdem. Por isso estão vivas, e alimentam-se da seiva que bebem nos teus lábios, quando os abres, e por instantes a vida inteira se resume ao sorriso que neles se esboça. Nuno Júdice Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/06/flores.html (In)quietudes - 28Mai2007 10:01:00
![]() Detenho-me no prazer de percorrer as galerias de meus ecos onde os sons pensam e os pensamentos dançam num fluxo em que até o silêncio seduz ardente Decifro Dedos macios que dedilham a cupidez das rosas Uma música onde os oceanos se repartem tocando os lábios na escuridão Diluo-me Em bocas que se pintam à luz do sol e que serenamente mordem e beijam a metade pronunciável da quietude foto de XMaya in Olhares.com Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/05/inquietudes.html Raio de luz - 17Mai2007 20:56:00
![]() Numa tarde morna de Maio, O meu olhar baço e dormente desenrolou-se sem sentido, buscando uma imagem distante. Um pássaro desprendeu-se do meu peito gritou, voou sem nenhum destino, e um novo olhar até aí, plangente e perdido dissolveu-se num raio de luz e se afogou de encontro ao meu. João-Maria Nabais, O Silêncio das Palavras João-Maria Nabais é licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina da Universidade Clássica de Lisboa. Tem mais de uma centena de artigos e ensaios publicados nas áreas das Ciências da Saúde; História da Medicina; Escritores Médicos e Literatura. Tem sido distinguido por mais de uma vez ? Prémio Moldarte Pintura / 87; Prémios ANTÓNIO PATRÍCIO de Poesia / 96 e 02, com os livros Poemas e Sons de Urbanidade, ambos pela Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos; Medalha de Mérito Cultural da Associação de Escritores Médicos e Jornalistas de Bucareste ? Roménia / 04. Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/05/raio-de-luz.html Noivado - 28Abr2007 14:26:00
![]() Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura. - És tu Ernesto, meu amor? Não era. Era o Bernardo. Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes. É o que faz a miopia. Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic, Ed. Estampa Pintura de Henri Rousseau, Um casamento campestre, 1905 Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/04/noivado.html 25 de Abril - 24Abr2007 21:34:00
![]() Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo Sophia de Mello Breyner Andresen Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/04/25-de-abril.html Definição do amor - 21Abr2007 22:44:00
![]() "Amor é fogo que arde sem se ver é ferida que dói e não se sente é um contentamento descontente é dor que desatina sem doer" (Camões) Que o poeta de todos os poetas me conceda boa estrela que a estrela de todos os astros me premeie na lapela prémios de honor prefiro os muitos oferecidos pelas mãos do amor coroando o amor e os seus heterónimos nem vão caber nos Jerónimos Amores anónimos não há e assim foi pela madrugada mesmo que seja um "assim fosse" vou nomear-te namorada ninguém já soube o que é o amor se o amor é aquilo que ninguém viu uma cor que fugiu e pairou serena e breve no ar (Pousa agora, borboleta na pena deste poeta:) É uma cor que dá na vida o amor é uma luz que dá cor é uma cor que dá na vida o amor é uma luz que dá na cor mas é uma batalha perdida que se trava com ardor é uma cor que dá na vida o amor dor que desatina sem doer Se devagar se vai ao longe devagar te quero perto mesmo que o que arde nunca cure vou beijar-te a sol aberto é já dos livros que o instante se parece tanto com a eternidade e que o amor na verdade só se cansa de ti se de ti mesmo te cansas Mordidas mansas, emoções suspiros, densos, afagares liberto das definições o amor define os seus lugares ilhas desertas até ver ver o sol, a chuva o arco do corpo arco-íris, corpo a corpo cara a cara, cor a cor incandescendo o olhar (Pousa agora, borboleta na pena deste poeta:) É uma cor que dá na vida o amor é uma luz que dá cor é uma cor que dá na vida o amor é uma luz que dá na cor mas é uma batalha perdida que se trava com ardor é uma cor que dá na vida o amor dor que desatina sem doer E ao pôr o dedo nas feridas que supunhámos curadas provas de fogo atravessamos no mar alto festejadas não se controla o inesperado nem se diz o indizível do amor uma cor que fugiu de um pano leve e pairou serena e breve no ar (Pousa agora, borboleta na pena deste poeta:) É uma cor que dá na vida o amor é uma luz que dá cor é uma cor que dá na vida o amor é uma luz que dá na cor mas é uma batalha perdida que se trava com ardor é uma cor que dá na vida o amor dor que desatina sem doer Composição: Sérgio Godinho Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/04/definio-do-amor.html Perguntas à Língua Portuguesa - 03Abr2007 16:05:00
![]() Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas dela? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua: Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo? No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco? A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética? O mato desconhecido é o anonimato? O pequeno viaduto é um abreviaduto? Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente? Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu? Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado? Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação? O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim? Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"? Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço? Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro? [...] Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca? Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambésia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela faziaé, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português - o nosso puguês - na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana. Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente. Mia Couto Pintura de Bertina Lopes, Mafalala Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/04/perguntas-lngua-portuguesa.html Brincar no Português - 30Mar2007 12:10:00
![]() Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta. A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou. Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio. No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas. Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de reproduzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro? Mia Couto Pintura de Ilídio Candja Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/03/brincar-no-portugus.html Nocturnos - 28Mar2007 16:03:00
![]() Vens de noite no sonho sem pés entre páginas de gasta paciência quando a música findou e teu sorriso se desfez como um grão de pólen. Vens no veneno oculto de meus dias no silêncio dos meus ossos devagar arrastando em queda o nosso mundo. Vens no espectro da angústia na escrita inquieta destes versos no luto maternal que me devolve a ti. A escuridão desce então sobre o meu corpo quando o rosto da morte adormece na almofada. Ana Marques Gastão, Nocturnos, Lisboa, Gótica, 2002 _____________________________________________________________________________________ ANA MARQUES GASTÃO Nasceu em Lisboa, em 1962. Advogada, formou-se na Universidade Católica e é actualmente redactora cultural e crítica literária do jornal Diário de Notícias. Como poeta, tem também representado o país em certames internacionais. Alguns livros: Tempo de Morrer,Tempo para Viver (1998) Terra sem Mãe (2000) A Definição da Noite (2003) Nós / Nudos (2004) ____________________________________________________________________________________ Pintura de Cézanne Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/03/nocturnos.html Carta - 19Mar2007 14:00:00
![]() 24 - 9 - 1929 Ex.ma Senhora D. Ofélia Queirós: Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª - considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer cousa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obedência e da disciplina) - que V. Ex.ª está proibida de: (1) pesar menos gramas, (2) comer pouco, (3) não dormir nada, (4) ter febre, (5) pensar no indivíduo em questão. Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que caso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo. Cumprimenta V. Ex.ª Álvaro de Campos, Eng. naval Fernando Pessoa, Escritos Íntimos, Cartas Pintura de Henri Matisse, Femme assise à sa coiffeuse Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/03/carta.html Carta de amor - 14Mar2007 12:43:00
![]() 9 - 10 - 1929 Terrível bebé: Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também por que é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e por que é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim. Fernando Fernando Pessoa, Escritos Íntimos, Cartas Pintura de Gustave Klimt, O beijo Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/03/carta-de-amor.html O meu filho não gosta de ler - 06Mar2007 14:55:00
![]() O meu filho não gosta de ler Entretanto, no liceu (como dizem em itálico as histórias de banda desenhada belgas da sua geração), os pais: - Sabe, o meu filho... a minha filha... os livros... O professor de Português já percebeu: o aluno em questão "não gosta de ler". - Mas o que mais me espanta é que quando era mais pequeno, lia imenso... devorava. Não é, querida? Podemos dizer que devorava. - A querida opina: devorava. - É preciso que se diga que nós proibimo-lo de ver televisão! (Aqui temos outra figura de retórica: a proibição absoluta de ver televisão. Trata-se de um famoso truque pedagógico, que consiste em resolver o problema suprimindo o seu enunciado!) -É verdade, proibido de ver televisão durante todo o ano escolar. É um princípio que mantemos intransigentemente! Televisão, não pode ver, mas tem piano das cinco às seis, viola das seis às sete, dança à terça, judo, ténis, esgrima ao sábado, esqui mal caem os primeiros flocos de neve, vela mal o sol desponta, olaria nos dias de chuva, viagem a Inglaterra, ginástica rítmica... Ele não tem a mais pequena hipótese de se encontrar consigo próprio, mesmo que seja apenas durante um quarto de hora. Morte aos sonhos! Morte ao tédio! O belo tédio... O longo tédio... O tédio que torna possível o acto de criar... - Fazemos os possíveis por que ele nunca se aborreça. (Coitado dele...) - Nós preocupamo-nos - como direi? -, preocupamo-nos em dar-lhe uma formação completa... - Eu diria eficaz, querida, sobretudo eficaz. - Se não fosse assim, não teríamos cá vindo. - Felizmente que em matemática os resultados não são maus... Daniel Pennac, Como um romance, Ed. Asa Pintura de Adelaide Claxton Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/03/o-meu-filho-no-gosta-de-ler.html O verbo ler não suporta o imperativo - 05Mar2007 17:15:00
![]() O verbo ler não suporta o imperativo O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo "amar"... o verbo "sonhar"... É evidente que se pode sempre tentar. Vejamos: "Ama-me!" "Sonha!" "Lê!" "Lê, já te disse, ordeno-te que leias!" - Vai para o teu quarto e lê! Resultado? Nada. Ele adormeceu sobre o livro. De súbito, a janela pareceu-lhe aberta de par em par, por onde ele se iria evadir, voar, para fugir ao livro. Mas era um sonho acordado: o livro continuava aberto diante dele. Se abrirmos uma nesga da porta, lá está ele, sentado à sua mesa, sabiamente ocupado a ler. Mesmo que tenhamos subido a escada pé-ante-pé, a superfície do seu sono avisou-o da nossa chegada. -Então, estás a gostar? É claro que a resposta não vai ser negativa, seria um crime de lesa-majestade. O livro é algo sagrado, como é possível que haja alguém que não goste de ler? Não, ele dirá que as descrições são demasiado longas. Tranquilizados, voltamos ao nosso posto diante da televisão. Pode até suceder que esta reflexão suscite um apaixonante debate entre nós... - Ele acha que as descrições são demasiado longas. Temos de o compreender, estamos no século do audiovisual, evidentemente, os autores do século XIX tinham de descrever tudo... - Mas isso não é razão para o deixarmos saltar metade das páginas! ... Não nos preocupemos, ele adormeceu. Daniel Pennac, Como um romance, Ed. Asa Pintura de Jean Honoré de Fragonard, Rapariga a Ler, 1776 Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/03/o-verbo-ler-no-suporta-o-imperativo.html O prazer de ler - 03Mar2007 11:19:00
- Pára de ler, vais estragar os olhos! Nesse tempo, os dias estavam sempre demasiadamente bonitos para os desperdiçar com leituras, e as noites eram demasiadamente escuras. Note-se que, quer se lesse quer não se lesse, o verbo já era conjugado no imperativo. Mesmo no passado, já era assim. De certo modo, ler era um acto subversivo. À descoberta do romance acrescia a excitação da desobediência à família. Era um duplo esplendor! Ah, a magnífica recordação de horas de leitura às escondidas, debaixo dos lençóis, à luz da lanterna. Como galopava a Anna Karenina ao encontro do seu Vronski, àquelas horas da noite! Amavam-se um ao outro, o que já era magnífico, mas amavam-se enfrentando a proibição de ler, o que era ainda melhor! Amavam-se contra a vontade do pai e da mãe, contra o trabalho de matemática por acabar, contra a redacção, contra o quarto por arrumar, amavam-se em vez de irem para a mesa, amavam-se antes da sobremesa, preferiam estar um com o outro a irem ao futebol ou a apanharem cogumelos... tinham-se escolhido um ao outro, nada mais queriam do que estar um com o outro... meu Deus, como o amor é belo! E como se lê o romance num instante! Daniel Pennac, Como um romance, Ed. Asa Pintura de António Bandeira Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/03/o-prazer-de-ler.html Direitos imprescritíveis do leitor - 02Mar2007 10:11:00
![]() Direitos imprescritíveis do leitor 1 - O direito de não ler. 2 - O direito de saltar páginas. 3 - O direito de não acabar um livro. 4 - O direito de reler. 5 - O direito de ler o que quer que seja. 6 - O direito ao bovarysme (doença textualmente transmissível). 7 - O direito de ler em qualquer parte. 8 - O direito de rebuscar. 9 - O direito de ler em voz alta. 10 - O direito de nos calarmos. Daniel Pennac, Como um romance (texto da contracapa), Ed. Asa Desenho de Almada Negreiros Fonte: http://ecodepalavras.blogspot.com/2007/03/daniel-pennac.html | ||||||
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